O Florindo tinha muito que explicar...anos e anos de recalcamento, mas será que não seria tarde demais??
Pérola, esperneia estrebucha e aplica os seus conhecimentos de defesa adquiridos ao longo de anos e anos a ver os programas da "sô" dona Cristina e do "Sôr" Goucha na TVI (diz que se aprende qualquer cosita com aquilo) e deixa inertes os dois capangas "Ginger" e "Fred" - um bailado e pêras!
Florindo sente que tem de fazer qualquer coisa, a sua Maria dos Prazeres Ocultos, ia fugir outra vez e esta era a sua derradeira oportunidade. Como fazer aquela mulheraça parar e escutá-lo (não havia tempo para floristas, chocolates ou técnicas afins). Num rasgo raro de inteligência, começa a recitar Vinicius de Moraes:
"Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará
Pela luz dos olhos teus
Eu acho meu amor que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar"
Anos e anos de "esforço, dedicação e glória" ao teatro e foi tudo recompensado naquele momento absolutamente divinal. Foi, digno de qualquer cena romântica do calibre do "Casablanca" direi mm até quase tão bom como algumas cenas do "Anjo Selvagem"(a emblemática novela dessa grande estação de TV)!
Enfim serviu os seus propósitos e fez com que a Maria parasse estarrecida. A perplexidade era tanta que a "Pérola" não sabia bem o que fazer: bater-lhe? beijá-lo? enfiar-se na ostra de onde tinha saído porque tudo aquilo era um sonho (ou pesadelo)? A senhora resolve então dar-lhe um pontapé onde dói mais (nas costas , claro), e depois deu-lhe um beijo no meio da testa e resolveu dar-lhe 5 minutos de antena. (o Alzheimer tem destas coisas).
Florindo suava, transpirava, e lá contou a sua história desde pequenino e de como tinha crescido o seu amor e admiração por aquela diva. Explicou também o local onde se encontravam e o porquê, e a Maria ficou com a lágrima no canto do olho...enternecida, pensou "Why not?" (ou porque não - porque a mulher é da provincia e sabia lá ela falar "ingrês"), foi para viver novas aventuras que queria sair de A-dos-Frangos, por isso aceitou encarnar a Maria de Lurdes Pintassilgo. Venha o musical e vamos ter mais fregueses que o La Féria!
Entretanto chega ao "armazém frigorífico", um dos actores convidados – o senhor comandante da GNR de A-dos Frangos – o comandante Galinácio Silva. O Comandante pede muita desculpa pelo atraso, e explica-se dizendo que hoje tinha sido o dia mais exigente da sua carreira profissional. A sua prima em 33º grau – a Maria dos Prazeres Ocultos, tinha sido raptada, algo inédito e nunca visto na pacata vilória. Entretanto, a dita senhora encontrava-se nos camarins (vulgo câmara de desmancho, dos bicharocos que depois seguem para o Talho 20) a encarnar a personagem de que fora incumbida. Quando sai dá de caras com o primo, que aflitíssimo continuava a contar a história do dia, o senhor ficou de todas as cores, ao ver que a ex-raptada afinal estava fina da vida. O Florindo resolve avançar e contar a história toda, para o mais depressa possível avançar para os ensaios. Ânimos acalmados avança-se para a o que interessa - o musical do ano.
O Gueldo ainda atónito perante o rapto da "Pérola", perante os seus olhos e sem nada poder fazer, está cada vez mais interessado em saber notícias do seu verdadeiro pai, e sabe agora que está no caminho certo. Por isso resolve ficar por A-dos-Fangos, aguardando novos desenvolvimentos de uma procissão que ainda ia no adro.
Dirige-se então até á única pensão Estrelinha da vila. A Dona Ermelinda Cunhal recebe-o com pompa e circunstância, pois afinal quase todos os hóspedes que frequentavam a pensão normalmente só pagam e usam (por umas horitas) os respectivos quartos. Instala-se no seu quarto, confraterniza com umas baratas (genéticamente alteradas a avaliar pelo tamanho xxl), e espreita a vista da janela, avista a lixeira municipal com uma panóplia indescritível de cores(sente que está em casa, lá no Brasil).
Mas lá longe muito muito ao longe vê um Objecto Voador não identificado (ok era um helicóptero), e consegue identificar os dizeres "Coca Airlynes – we make you fly". Liga desesperado para a recepção e diz á senhora Ermelinda:
"Dôna Ermelinda cê sabe onde que há coisas estranhas mêmo estranhas, mas mêmo estranhas, sabe assim tipo estranhas??? É aqui mêmo neste terra mêmo, ponha sua cabeça de fora e veja cê mêma..."