sexta-feira, setembro 08, 2006

Olha para o céu e diz-me o que vês

O Florindo tinha muito que explicar...anos e anos de recalcamento, mas será que não seria tarde demais??
Pérola, esperneia estrebucha e aplica os seus conhecimentos de defesa adquiridos ao longo de anos e anos a ver os programas da "sô" dona Cristina e do "Sôr" Goucha na TVI (diz que se aprende qualquer cosita com aquilo) e deixa inertes os dois capangas "Ginger" e "Fred" - um bailado e pêras!

Florindo sente que tem de fazer qualquer coisa, a sua Maria dos Prazeres Ocultos, ia fugir outra vez e esta era a sua derradeira oportunidade. Como fazer aquela mulheraça parar e escutá-lo (não havia tempo para floristas, chocolates ou técnicas afins). Num rasgo raro de inteligência, começa a recitar Vinicius de Moraes:

"Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará
Pela luz dos olhos teus
Eu acho meu amor que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar"

Anos e anos de "esforço, dedicação e glória" ao teatro e foi tudo recompensado naquele momento absolutamente divinal. Foi, digno de qualquer cena romântica do calibre do "Casablanca" direi mm até quase tão bom como algumas cenas do "Anjo Selvagem"(a emblemática novela dessa grande estação de TV)!

Enfim serviu os seus propósitos e fez com que a Maria parasse estarrecida. A perplexidade era tanta que a "Pérola" não sabia bem o que fazer: bater-lhe? beijá-lo? enfiar-se na ostra de onde tinha saído porque tudo aquilo era um sonho (ou pesadelo)? A senhora resolve então dar-lhe um pontapé onde dói mais (nas costas , claro), e depois deu-lhe um beijo no meio da testa e resolveu dar-lhe 5 minutos de antena. (o Alzheimer tem destas coisas).

Florindo suava, transpirava, e lá contou a sua história desde pequenino e de como tinha crescido o seu amor e admiração por aquela diva. Explicou também o local onde se encontravam e o porquê, e a Maria ficou com a lágrima no canto do olho...enternecida, pensou "Why not?" (ou porque não - porque a mulher é da provincia e sabia lá ela falar "ingrês"), foi para viver novas aventuras que queria sair de A-dos-Frangos, por isso aceitou encarnar a Maria de Lurdes Pintassilgo. Venha o musical e vamos ter mais fregueses que o La Féria!

Entretanto chega ao "armazém frigorífico", um dos actores convidados – o senhor comandante da GNR de A-dos Frangos – o comandante Galinácio Silva. O Comandante pede muita desculpa pelo atraso, e explica-se dizendo que hoje tinha sido o dia mais exigente da sua carreira profissional. A sua prima em 33º grau – a Maria dos Prazeres Ocultos, tinha sido raptada, algo inédito e nunca visto na pacata vilória. Entretanto, a dita senhora encontrava-se nos camarins (vulgo câmara de desmancho, dos bicharocos que depois seguem para o Talho 20) a encarnar a personagem de que fora incumbida. Quando sai dá de caras com o primo, que aflitíssimo continuava a contar a história do dia, o senhor ficou de todas as cores, ao ver que a ex-raptada afinal estava fina da vida. O Florindo resolve avançar e contar a história toda, para o mais depressa possível avançar para os ensaios. Ânimos acalmados avança-se para a o que interessa - o musical do ano.

O Gueldo ainda atónito perante o rapto da "Pérola", perante os seus olhos e sem nada poder fazer, está cada vez mais interessado em saber notícias do seu verdadeiro pai, e sabe agora que está no caminho certo. Por isso resolve ficar por A-dos-Fangos, aguardando novos desenvolvimentos de uma procissão que ainda ia no adro.

Dirige-se então até á única pensão Estrelinha da vila. A Dona Ermelinda Cunhal recebe-o com pompa e circunstância, pois afinal quase todos os hóspedes que frequentavam a pensão normalmente só pagam e usam (por umas horitas) os respectivos quartos. Instala-se no seu quarto, confraterniza com umas baratas (genéticamente alteradas a avaliar pelo tamanho xxl), e espreita a vista da janela, avista a lixeira municipal com uma panóplia indescritível de cores(sente que está em casa, lá no Brasil).

Mas lá longe muito muito ao longe vê um Objecto Voador não identificado (ok era um helicóptero), e consegue identificar os dizeres "Coca Airlynes – we make you fly". Liga desesperado para a recepção e diz á senhora Ermelinda:

"Dôna Ermelinda cê sabe onde que há coisas estranhas mêmo estranhas, mas mêmo estranhas, sabe assim tipo estranhas??? É aqui mêmo neste terra mêmo, ponha sua cabeça de fora e veja cê mêma..."

sexta-feira, setembro 01, 2006

O cativeiro

A viatura seguia a grande velocidade, os pombos iam forrando a pneumática do Mercedes e o condutor orgulhoso do seu feito gritava a plenos pulmões “Finalmente, vou concluir a minha obra prima, finalmente!”.
Dentro do carro Ginger e Fred tentavam dominar Pérola, mas ela, mulher rija do campo, distribuía insultos e pancada aos dois raptores.
Fânzeres, vila raiana, com ruas ladrilhadas de basalto encolhiam-se ao passar do bólide. Florindo tenta confundir a cativa acelerando em diferentes sentidos e dando voltas à antiga praça de toiros, hoje uma loja de produtos asiáticos.
Chegam finalmente ao destino, o armazém frigorífico do império Florindo.Deste armazém brotava um bulício diferente de um qualquer depósito de carnes. Na realidade era um teatro onde Florindo se dedicava aquilo que mais gostava, escrever, produzir e realizar musicais.
Florindo era um homem de palco, mas sempre o escondera. Tinha medo que o considerassem menos homem por gostar de plumas e lantejoulas. Gastou a vista a ler revistas espanholas sobre musicais americanos que obtinha através de subornos de linguiças e pés de galinha aos GNR’s da fronteira.
Foram tempos difíceis, para este aprendiz de encenador. Filiou-se no PCP para poder camuflar as revistas dentro do Jornal Avante. Todos pensavam que ele era do reviralho, mas para ele, vermelho vivo era o vestido que Ginger Rogers envergava no filme ‘Vivacius Lady’, que ele conhecia pelo nome em castelhano ‘Ardid Feminino’. A inveja que ele tinha de James Stewart… odiava-o e sempre que se lembrava disso pedia para “desmanchar” as reses.
Neste momento tinha entre mãos o maior projecto da sua vida, um musical. Mas não era um musical qualquer, era um musical que retratava o período dos Governos de iniciativa presidencial do General Ramalho Eanes.
Já recrutara actores para fazerem o papel de Alfredo Nobre da Costa, Carlos Mota Pinto, mas faltava-lhe a “gordura na chouriça” - como costumava dizer – a menina dos seus olhos, e finalmente tinha-a à sua frente, ainda que amarrada e presa ao gancho da carne, a sua Pérola, a diva, aquela que iria fazer de Maria de Lurdes Pintassilgo.
O palco estava montado. As cadeiras vermelhas compradas no leilão do cinema Olímpia e que demoraram 3 meses a limpar, as cortinas verdes, que pertenciam a um antigo anúncio do BES, mas que mal se notava o logótipo, a iluminação feita com velas, não para poupar mas para dar um ar mais intimista ao espaço - porque no fundo era um armazém frigorifico - e o toque de classe, o pau das pancadas de Molière, feito do fémur de uma vaca, porque “um homem não pode esquecer o seu ganha-pão”.

Pérola foi recebida pelo resto do elenco de pé, com palmas e flores. Tinham sido ordens expressas de Florindo e uma ordem deste senhor era para ser cumprida. Certa vez um contra-regra desrespeitou um ditame seu e durante uma semana houve costeletas de porco e miudezas mais baratas na cadeia de talhos.

“Ginger, Fred soltem a Pérola!”. Ordenou Florindo aos seus capangas.“Mas, afinal o que vem a ser isto?”. Inquiriu a cativa...

segunda-feira, abril 04, 2005

Filho bastardo procura pai

- Oi! Cê me pode providenciar um bilhete de autocarro que me leve de Fanzeres pr'á Lisboa?
- Concerteza, são 7.50euros por favor!
- Agradecido!

Gueldo Marílio pegou no bilhete com ar de desalento. Este bilhete significava que a sua vinda do Brasil para terras lusitanas tinha sido em vão, que não tinha conseguido encontrar o seu pai biológico, que a sua mãe antes de morrer lhe tinha mentido. Gueldo vertia uma lágrima ao relembrar as palavras da mãe já no leito da morte: "- Gueldo meu querido, o seu pai não é Gerivaldes. É um português chamado António da Assunção Fanqueiras Teresinhas que vive...que vive...que vive em Fanzeres, Portugal. Promete-me que o procuras?". Ali, Gueldo perante tamanha revelação, jurou-lhe que assim o faria custasse o que custasse.
Agora sentado no banco à espera da hora do autocarro, Gueldo apercebera-se que não tinha conseguido concretizar a última vontade da mãe... e isso custava-lhe horrores.

A presença de uma senhora de idade com ar meio desorientado fê-lo desviar-se daquele pensamento. A maneira como estava vestida e a forma despachada como carregava uma mala pesada da Louis Vuitton era o que mais o intrigava. Mas como uma senhora com este porte sem bigode típico das senhoras das terrinhas estará por estes lados a fazer? Um elegante blazer preto não combinava de todo com as calças de pijama meio roçadas que vestia na parte inferior e os ténis All Star vermelhos que trazia calçados muito menos. Sem pensar mais Gueldo dirigiu-se para ela com o intuito de saber se precisava de ajuda:

- Desculpe, a senhora está bem?
- Estou sim meu jovem. Eu sei que posso parecer maluca, mas acredite que estou longe disso. Eu só queria era saber onde e quanto custa um bilhete de autocarro para sair desta terra.
- Depende do sítio para onde cê quer ir.
- Para mim todos os sítios servem. Quero é começar uma nova vida longe de Fanzeres e de A-dos-Frangos, da rotina destas terras, das lembranças daquele que foi o meu único e verdadeiro amor, o António Teresinhas.
- Desculpe?! Pode repetir é que esse nome não me é estranho...

A partir deste momento a sorte de Gueldo iria mudar. Durante 3 meses andou feito louco à procura do seu suposto pai e agora em apenas 3 minutos tinha-o encontrado finalmente. Será?

A "Pérola"

O desejo de António Maria da Assunção Fanqueiras Teresinhas, de voltar a terras lusas, é exacerbado pela vontade de rever a sua Maria, especialmente depois de ter recebido um telefonema do Tio Manel Jaquim, informando que lá por A-dos-Frangos (terrinha que fica ali perto de Fanzeres) não se falava de outra coisa a não ser o "rapto" da sua "Pérola" - a.k.a. Maria Ermelinda dos Prazeres Ocultos.

Apesar dos anos que passaram e do oceano que os separava, o "Tótoteresinhas", continua a sentir o titilar do seu coração quando ouve falar da Maria. A história entre eles foi curtinha, mas intensa (os bailes lá por aquelas terras são de arromba). Foi ela, a razão por que D. Antonio Teresiñas abandonou do convento, mas foi ela também, que o levou a ir para terras brasileiras. Ele ainda lhe enviou umas amostras cultivadas por si mesmo, lá pelas terras da Bolívia para ver se a convencia, mas passados tantos anos (ela sofria de alzheimer) parecia já nem sequer se lembrar do seu "Tonhito". Mas entretanto mesmo sem que D. António soubesse, floresciam no jardim da quinta dos Prazeres as suas lindas plantas - curiosamente, e para gáudio (inexplicável) dos trabalhadores da quinta. A um ritmo alucinante as plantinhas proliferavam como se não houvesse amanhã, sob o olhar enternecido e quiçá esgazeado da Mariazinha.

Entretanto lá em A-dos Frangos a trama adensa-se já que Maria desapareceu sem deixar rasto. O que teria acontecido? é a pergunta que se impõe. A família da Maria: seus 5 filhos, com quem mantinha uma relação próxima não fazem a a menor ideia sobre o ocorrido, nenhum motivo aparente justificava o seu desaparecimento súbito, sendo a única explicação para o facto que a sua querida e adorada mãezinha tivesse sido raptada. Aparentemente numa aldeola pacata alguém estava interessado no desaparecimento de uma velhota com Alzheimer, mas porquê?

Pois é pois é, mas afinal nem sempre aquilo que parece é, e afinal a Maria Ermelinda dos Prazeres Ocultos, tinha outros planos (de que nem a PSP de A-dos-Frangos suspeitava). O que ela queria mesmo era sair de vez de A-dos-Frangos, da vida recatada da aldeia e ver o mundo! Nunca teria coragem de abandonar os seus 33 netinhos queridos, os seus filhos, noras e genros que adorava, mas também não poderia viver incondicionalmente o final da sua vida, em função dos seus entes queridos, que afinal já tinham a sua vida organizada. Estava farta daquela vidinha e se ficasse pela Santa Terrinha as coisas iam acabar mal. Era o seu momento, a sua vez de aproveitar a vida, e então carregou a sua Louis Vouitton, com os Euros que estavam debaixo do colchão, agarrou no American Express e a única peça que levou foi um fatinho da Fátima Lopes (que afinal já estava um pedacinho esquartejado). Calçou as suas Timberland e fez-se ao caminho num lindo dia de Verão em que chovia a cântaros. E assim se fez à estrada a Maria sem pertences, mas com o cérebro cheio de "coisas", a que resolveu chamar ideias brilhantes...

sábado, abril 02, 2005

A verdadeira história de D. António Teresinhas

D. António Teresinhas, de seu nome completo António Maria da Assunção Fanqueiras Teresinhas, nasceu em Fanzeres em 1942.

Filho de D. Teresa Assunção e de Manuel Fanqueiras Teresinhas, abastados comerciantes de presuntos e outros derivados do suíno, cresceu num clima de inegável prosperidade financeira e extremoso afecto maternal.

Desde cedo, António se dividiu entre o regaço da mãe e os inúmeros bichos que davam sustento à família tendo especial preferência pela companhia dos pequenos bácoros. Assim se traça o seu destino - mal amado e com tendencia para a bacorada!

A infância não lhe sorri. Constantemente perseguido pelos colegas que lhe martelam os ouvidos com constantes referências: "Ò Tó, o primeiro porquinho lá em casa deves ter sido tu!"; "Teresinhas - levanta as saias!!!". Mas vai crescendo.

Os anos passam e o jovem "Tótoteresinhas", como entretanto se torna conhecido, cresce com um desejo na alma: ser Judeu e nunca mais comer porco! A mãe, profundamente católica divide-se entre o afecto que tem ao filho e o amor à igreja mas chega a uma decisão: - Vais para Braga e vais ser Padre!!!

E assim, com uma malita com algumas roupas e uma cestinha com um farnel de torresmos segue para Braga onde é recebido e abandona a vida terrena para abraçar o plano espiritual.

É em Braga que se liberta. Renúncia aos desejos da mãe e foge do convento. Com 21 anos recém feitos alista-se na marinha mercante e parte rumo ao Brasil.

Mas não se fica por aí! Do Brasil sai à aventura e só pára, alguns anos mais tarde, na Bolívia.
Nessa altura já ninguém sabe quem é "Tótoteresinhas" - é conhecido como D. Antonio Tereziñas e dedicou-se ao cultivo de uma planta que começa a ter muita procura no "Boom" dos Sixties.

Não se casou, continua a ter alguma dificuldade em gerir afectos! Mas engordou e está rosadinho...

Alimenta o desejo de voltar a Portugal mas o medo é mais forte. Imagina-se a chegar, rodeado de luxos e mordomias e ouvir: "Ò Tótoteresinhas! Levanta as saias!!!".